Em sua terceira edição, a feira de arte ArPa aconteceu em meio a obras e ocupa um novo espaço na Mercado Livre Arena Pacaembu. O evento continua com sua proposta múltipla de curadorias e projetos autênticos, que permitem o olhar do visitante passear com calma entre os estandes, sendo possível um aprofundamento maior na pesquisa de cada artista participante. Uma experiência diferenciada de feira de arte.
E a Revista Philos convidou Thaís Bambozzi, para construir nossa listagem de destaques e nos contar suas impressões acerca da terceira edição da feira de arte. Sem mais delongas, eis o nosso Top 10 de Melhores Obras e Artistas da ArPa 2024:

Com a proposta curatorial “A linha do Equador atravessa nossos corações”, a galeria apresenta uma conversa entre três artistas brasileiros que discutem a história por meio de práticas que embaralham as intersecções entre memória afetiva e arquivos históricos. Com trabalhos de Diego Mouro e Rafael RG, o destaque especial vai para Aline Motta, participante da 35ª Bienal de São Paulo, premiada pelo PIPA 2024 e vencedora da 2° Edição do Prêmio Selo Mandacaru, cuja sensibilidade transita entre palavra e imagem.
No Setor UNI, com curadoria de Germano Dushá em colaboração com Benedicta M. Badia, as galerias reúnem artistas da América Latina e Caribe que exploram a temática do mistério da vida através de diversas linguagens. A Galatea apresenta um projeto solo de Miguel dos Santos, com pinturas, esculturas e cerâmicas. Em entrevista, o artista menciona a influência de artistas como Mestre Vitalino, Fídias e Michelangelo: “Quando vi o trabalho deles, não senti que estava olhando para o passado, mas que estava vendo um futuro maior para mim como artista.”

A vontade de voltar dia após dia ao estande da OÁ Galeria na ArPa para olhar um pouco mais ainda não passou. “Fiar aberturas para o lugar nenhum” é um solo inédito do artista Rick Rodrigues, com bordados e pequenos objetos, instalações cheias de detalhes e obras individuais, narrativas intimistas e uma expografia minuciosa. Em texto de Neusa Mendes: “A poética de Rick nos conduz à experiência de duração, desencadeia a (re)descoberta do que a vida faz ou pode fazer para além ou aquém. A possibilidade de uma experiência estética produzida pelos arranjos e (re)arranjos é um intenso e detalhado diário de memórias, sensível e delicado.” Impossível não concordar.

Um projeto inédito de duas artistas excepcionais, Amalia Giacomini e Nazareth Pacheco, com obras que interagem na formação de uma narrativa complexa e multifacetada. Amalia desafia as percepções do espaço, explora os limites e as barreiras que se interpõem na experiência humana entre corpo e arquitetura, enquanto o trabalho de Nazareth mergulha nas complexidades da condição humana, revelando as camadas encobertas de nossa psique que lidam com sonhos não realizados ou aspirações sufocadas. Um encontro que toca o impossível.

A elegância do estande que apresenta a nova série de pinturas de Nilda Neves, “A intimidade da terra”, criada após uma viagem da artista a Botuporã, cidade onde nasceu, localizada na Chapada Diamantina. Além da expografia irretocável e da beleza das pinturas, um texto homônimo do renomado escritor Itamar Vieira Junior, escrito especialmente para a ocasião, acompanha o projeto.

A exposição “Encantados”, com curadoria de Ana Carolina Ralston, apresenta relações entre as poéticas e técnicas dos artistas Bozó Bacamarte, Rayana Rayo e Véio. Citando Guimarães Rosa, a curadora pontua que “cada criatura é um rascunho a ser retocado sem cessar”. Esses seres, inspirados no real e no onírico, que habitam os universos dos três artistas aqui reunidos, são exemplos da força inesgotável da arte e da cultura, nos âmbitos íntimo e coletivo.

O projeto “Chiaroscuro sob o sol” tem curadoria de Felipe Barros de Brito e apresenta obras de Gustavo Diógenes e Thadeu Dias, ambos de Fortaleza, Ceará. Nas palavras do curador: “(…) claridade e crepúsculo se encontram e desencontram em territórios comuns de mentes diversas. Enquanto um se dedica às noites pouco iluminadas das pequenas cidades do sertão cearense com o clássico óleo sobre tela, o outro explode em cores oceânicas no cromatismo vibrante do pastel-seco. Frente a frente, seus trabalhos demonstram a capilaridade e a adaptabilidade do senso artístico em ver e perceber vivências que se assemelham, mas que se transformam e emergem com distinção.”

A OMA Galeria apresenta a produção mais recente dos artistas Andrey Rossi, Carla Duncan, Fernanda Figueiredo, Júlio Vieira, Nario Barbosa, com destaque especial para a obra “6 horas de luz” de Marlene Stamm, uma série formada por mais de 530 aquarelas de fósforos, cujo tempo de queima totaliza 6 horas. No processo de construção da série, o tempo se estende: 6 horas viram semanas nas ações de riscar o fósforo, cronometrar a chama e pintar o carvão, repetidas pela artista meticulosamente, centenas de vezes, equilibrando o acaso e a previsibilidade dos materiais industriais.

Na sua estreia na feira, a galeria apresenta o projeto “Trânsitos Semânticos”, com curadoria de Heloisa Amaral Peixoto, apresentando pinturas à óleo de Guilherme Santos da Silva, esculturas têxteis de Liene Bosquê e desenhos em giz pastel e oleoso de Marga Ledora. Em comum, os artistas apresentam, em seus trabalhos, uma relação espaço-temporal, na qual as criações são impulsionadas pelo substrato da memória, compondo “entrelaçamentos de lembranças sedimentadas e vestígios de história pessoal e coletiva”, como pontua a curadora.

Uma seleção especial de obras recentes de Elvis Almeida e Leka Mendes, realizada a partir da produção e pesquisa atuais dos dois artistas: pinturas, desenhos, esculturas e objetos, inéditos na sua maioria. Um encontro entre pinceladas coloridas e galáxias poéticas. Ainda, no Setor Arte em Campo, com curadoria de José Esparza Chong Cuy, há a obra – afiadíssima – “Tobogã Fantasma” de Raphaela Melsohn.
Thaís Bambozzi é sensível aos detalhes. Graduada em Direito pela PUC-SP e Artes Visuais pela EPA, com pós em História da Arte pela FAAP e atualmente realizando formação em Psicanálise no CEP. Trabalha com coordenação, pesquisa, escrita e produção de conteúdo na Nano Art Market e na Tropix, bem como é criadora da plataforma Mira, onde propõe reflexões sobre mulheres e arte em diversos formatos. Artista visual independente, escreve uma newsletter quinzenal e é idealizadora de um clube literário chamado Buquê.